Resenha | O Demonologista – Andrew Pyper

Editora Darkside traz um novo autor do gênero de terror para seu panteão.
0

A mente é onde eles habitam, e nela // Podemos fazer do inferno um paraíso, do paraíso um inferno

(trecho de Paraíso Perdido, de John Milton)

VOCÊ ACREDITA EM DEMÔNIOS?

David Ullman não acredita. Isso não o impediu de tornar-se um dos maiores especialistas na obra Paraíso Perdido, de John Milton, obra publicada em 1677 e que descreve a queda de Lúcifer.

Professor do Departamento de Inglês da Universidade de Columbia em Manhattan, Nova Iorque, David fez seu nome no meio acadêmico estudando o Adversário.

Para ele, é caso encerrado que demônios não existem. Não passam de criações da imaginação do homem junto com todo o resto da mitologia religiosa.

SUA ESPECIALIZAÇÃO LHE CUSTOU CARO

David pode não acreditar nos demônios, mas eles acreditam em David. E como acreditam.

O Professor Ullman é visitado por uma misteriosa mulher que lhe faz uma proposta ao mesmo tempo tentadora e estranha – ir à Veneza, na Itálila, com tudo pago, hospedagem em um dos melhores hotéis da cidade e uma vultuosa quantia em dinheiro por seu serviços.

David  só precisaria ir para a cidade observar o que ela mesmo chamou de fenômeno.  O motivo do cliente da mulher misteriosa de ter escolhido David é sua clara especialização nas obras sobre Lúcifer, especialmente o Paraíso Perdido, de Milton (citado ao longo de todo o livro).

Amargurado com o divórcio iminente, David acaba levando sua filha junto na viagem (sem contar a ela o real propósito de irem para Veneza – ainda que nem ele mesmo saiba exatamente o que vai fazer lá).

VENCENDO SEUS MEDOS PARA CONTINUAR SUA BUSCA

Após sua filha desaparecer em Veneza, o Professor Ullman conduz o leitor em uma viagem alucinante pelos Estados Unidos (com uma rápida passada pelo Canadá), na busca de acontecimentos estranhos que, de alguma forma, possam estar ligados à possessões demoníacas na esperança de encontrar sua filha desparecida e  – inclusive – tida como morta.

O medo assume as mais diversas formas ao longo da história. Andrew Piper nos faz sentir aquele incômodo constante ao colocar David de cara com pessoas possuídas em plena luz do dia (eu pelo menos sempre sempre me senti mais seguro achando que só de noite o mal se manifestava…).

A OBRA

A ótima narrativa apresentada por Andrew Pyper deixa sempre no ar se estes encontros são reais ou são produtos da mente de David, nunca concluindo se no fim das contas os demônios brincam com a mente de todos ou só com a de David.

Para aumentar a intensidade das possessões, a pessoa possuída pode voltar a si nas piores horas – quando a pessoa já está muito machucada e os demônios tentam apelar ao lado mais humano do Professor Ullman.

Todo o tortuoso caminho seguido pelo Demonologista David é cercado por estranhas coincidências, sinais que se cruzam, até um inseto pousando em algum lugar pode revelar algo fantástico se olhado de perto.

As descrições de Andrew Pyper são um extra: a ambientação narrada é tão única, tão pessoal, rapidamente você consegue se sentir familiar com qualquer que seja o lugar que o Professor Ullman está.

O leitor não vai só se identificar com David mas também vai fazer parte de seu calvário para ter sua filha de volta.

 

 

 

 

 

 

9.2
Edição 10
Enredo 9
Final 8.5
O VEREDITO

Excelente edição e trabalho de tradução impecáveis. A editora Darkside teve a preocupação de manter, sempre que se faz alguma referência ou é citado algum trecho de Paraíso Perdido, de Milton, a referência ao original em inglês. Também é muito interessante a edição contar também uma pequena biografia de Milton e de sua obra que é a pedra angular de O Demonologista. O final, apesar de batido é muito bem construído mas confesso que é no crescimento e fortalecimento do clímax do livro que se tem os seus melhores trechos.